Brasil

Brasil registra menor taxa de homicídios da história, mas dado esconde outra realidade

Atlas da Violência 2026 mostra queda histórica nas mortes violentas, só que aponta desigualdade persistente contra negros e indígenas e alerta para “homicídios ocultos”

O Brasil chegou a 2024 com a menor taxa de homicídios já registrada, de 20,1 mortes para cada 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. À primeira vista, o número parece motivo só de comemoração, já que representa queda de quase 27% em relação a 2014. Mas quem lê o relatório com atenção percebe que essa melhora geral esconde uma realidade bem mais desigual, com grupos específicos da população ainda vivendo níveis de violência muito acima da média nacional. Entender essa distância entre o dado geral e a experiência de quem mais sofre com a criminalidade ajuda a explicar por que a sensação de insegurança segue alta mesmo com os números oficiais em queda.

O que mostra a queda histórica nos homicídios do país

Divulgado no fim de maio, o Atlas da Violência é considerado o principal termômetro sobre mortes violentas no Brasil, já que cruza dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde com informações levantadas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A edição de 2026 confirma uma tendência que já vinha sendo observada nos últimos anos, com a taxa de homicídios caindo de forma consistente desde 2018. Segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo, essa redução reflete tanto mudanças demográficas quanto o resultado de políticas específicas de segurança pública adotadas em diferentes estados ao longo da década.

Ainda assim, o próprio relatório faz questão de destacar que tratar o país como um bloco único distorce a leitura da realidade. Enquanto Sul e Sudeste vêm reduzindo a letalidade de forma continuada desde o fim dos anos 1990, puxando a média nacional para baixo, estados do Norte e Nordeste como Roraima, Rondônia, Ceará, Pernambuco e Bahia viram a situação piorar ou permanecer praticamente estagnada, liderando os rankings de violência letal do país. Essa descentralização da violência extrema mostra que o crime organizado das facções encontrou no interior do Brasil uma nova fronteira de expansão, o que ajuda a explicar por que a percepção de segurança da população nem sempre acompanha a curva de queda dos homicídios registrados nas estatísticas oficiais.

Por que negros e indígenas seguem entre as maiores vítimas da violência

Um dos pontos mais alarmantes do Atlas da Violência 2026 é o retrato da desigualdade racial na letalidade. Só em 2024, foram registrados 32.820 homicídios de pessoas negras no Brasil, o equivalente a 77% do total de mortes violentas do país naquele ano. Em termos de taxa, isso significa 27,3 mortes para cada grupo de 100 mil pessoas negras, contra 10,1 entre não negros, categoria que reúne brancos, amarelos e indígenas segundo a metodologia do estudo. Na prática, isso quer dizer que uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que uma pessoa não negra, com estados como Alagoas chegando a apresentar risco relativo 23,3 vezes maior.

A situação dos povos indígenas também chama atenção dos pesquisadores. Depois de um período de queda, a taxa de homicídios entre indígenas voltou a crescer a partir de 2023, atingindo 23,4 mortes por 100 mil pessoas, quase o dobro da média nacional, em um cenário marcado por disputas territoriais que seguem sem solução definitiva. O coordenador do Atlas, Daniel Cerqueira, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea, afirmou à Agência Brasil que a violência tem aumentado, em muitos casos, justamente contra as minorias, o que reforça a ideia de que a queda geral nos homicídios não se distribui de forma equilibrada entre os diferentes grupos sociais do país.

O que são os homicídios ocultos e por que esse número preocupa especialistas

Além da desigualdade racial, o relatório chama atenção para um fenômeno que vem crescendo de forma silenciosa nas estatísticas, as chamadas Mortes Violentas por Causa Indeterminada, conhecidas como homicídios ocultos. Esses casos, que aumentaram mais de 23% apenas entre 2023 e 2024, representam mortes cuja causa não foi devidamente classificada pelo sistema de saúde ou pela investigação policial. Para especialistas em segurança pública, esse crescimento indica uma perda de capacidade do Estado em identificar corretamente quem morreu e por quê, o que pode distorcer para baixo os números oficiais de homicídio no país.

Esse ponto é importante para quem tenta entender a diferença entre os dados divulgados e a realidade sentida no dia a dia, já que uma parte da violência letal pode estar sendo registrada em categorias que escondem sua real natureza. Some-se a isso outro dado do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que mostra o Brasil registrando uma média de 2,5 mil celulares roubados ou furtados por dia, o equivalente a quase 1 milhão de ocorrências por ano, um tipo de crime patrimonial que atinge diretamente a sensação de insegurança do cidadão comum, mesmo sem aparecer nas taxas de homicídio. A combinação desses fatores ajuda a explicar por que o debate sobre segurança pública no Brasil raramente se resolve com soluções genéricas aplicadas da mesma forma em todo o território nacional.

Os números do Atlas da Violência 2026 mostram que o Brasil avançou de forma real na redução da letalidade nas últimas duas décadas, mas esse avanço não chegou da mesma forma para todos os grupos da população. A persistência da violência contra negros e indígenas, somada ao crescimento das mortes sem causa definida, indica que ainda há um caminho longo pela frente para reduzir as desigualdades que marcam a segurança pública brasileira. Acompanhar esses dados de perto ajuda o cidadão a entender melhor os limites das estatísticas oficiais e a cobrar políticas mais direcionadas para as regiões e grupos que mais precisam de atenção.

Fontes consultadas:

Diego Velázquez

Diego Velázquez

About Author

Você também pode gostar:

Brasil

Pastor Evangélico Indiciado por Crimes de Violência Sexual: Denúncias e Investigação Revelam Abusos

Um pastor evangélico foi indiciado no município de Antônio João após a conclusão de investigações relacionadas a um inquérito policial
Brasil

O Grande Debate: A Necessidade de Limitações Políticas para Militares e Policiais no Brasil

O debate sobre a participação de militares e policiais na política brasileira ganhou destaque recentemente, especialmente após a declaração do